Capítulo 6 - O dia em que levaram minha filha...
- 13 de out. de 2015
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Dia 25 de outubro de 2013... Porque a juíza mandou levar a Rafa lá na Vara da Infância? Afinal ela tinha aceitado a apelação com efeito suspensivo, até as visitas pararam, o que tinha acontecido? Momentos de angústia e nervosismo. Todos muito apreensivos. Poderiam tirar minha filha assim, desse jeito? Uma amiga me deu uma ideia: chamar pessoas para nos acompanhar naquele dia, assim teríamos testemunhas do que fosse acontecer lá. Alguns amigos e familiares vieram aqui pra casa, outros nos encontraram lá na Vara da Infância. Éramos mais ou menos 15 pessoas. A Rafa estava muito agitada, sentindo a nossa tristeza e a nossa tensão... Me lembro a roupinha que ela estava usando: Uma calça leggin preta e uma blusa de babado branca, e uma faixa combinando na cabeça, estava , como sempre, linda! Quando chegamos à Vara, fomos informados sim, que deveríamos entregar a Rafa para a família biológica ali mesmo, naquele dia. Eu questionei: mas a reinserção parou, e deveria ser gradativa, ela só foi um dia pra casa deles, e ainda nem dormiu lá... Mas não aceitaram meus argumentos, a mesma juíza que havia aceitado a apelação com efeito suspensivo, disse que cometeu um erro, e voltou atrás. Nos ameaçou de busca e apreensão da Rafa se não a entregássemos. Questionei o fato de que não havíamos recebido nenhuma intimação judicial, mas a psicóloga disse que o telefonema dela era a intimação. E me perguntou se queria entregar a Rafa ali mesmo na portaria ou queria subir. No início somente eu e Márcio poderíamos entrar, mas a recepcionista da Vara, que acompanhou todo o nosso sofrimento durante as visitas, abriu uma exceção, e deixou que todos nós subíssemos. Eu chorava muito... Rafaela me olhava assustada, não entendia o que estava acontecendo... deve ter pensado que seria mais uma visita, já que essa era a referência dela daquele lugar. Não sei... Ficamos esperando num corredor, todos nós... lembro que fizemos uma oração a Deus, todos de mãos dadas. A psicóloga veio e chamou a Rafa, ela não quis ir. Então ela a tirou do meu colo, disse que os pais biológicos estavam esperando na sala. A Rafa agarrava no meu pescoço, chorava, mas mesmo assim a psicóloga a levou... Eu sentei numa cadeira, e chorei copiosamente... sem forças... Daqui a pouco ouvi uns passou no corredor em direção a rua, e um choro alto... era minha filha, estavam levando ela embora... Uma criança chorando, iria agora enfrentar uma viagem de mais de uma hora de Avenida Brasil engarrafada, com pessoas que ela não estava acostumada... No momento da entrega não havia nenhum defensor público no local. Pedimos que a psicóloga fizesse um documento, dizendo que entregamos a criança sob ameaça de busca e apreensão, contra a nossa vontade, e que não havia defensor presente, e todos assinamos. Depois ficamos sabendo, que o defensor da Antonia pressionou a juíza,para que tomasse esta atitude,ela era nova e inexperiente, o defensor fez uma petição escrita a mão e a juíza aceitou. Também chegou ao nosso conhecimento que este mesmo defensor alegou que os pais biológicos estavam muito preocupados pois Rafaela poderia estar correndo risco conosco, e eles não sabiam se éramos pessoas idôneas. Tenho que dar uma pausa... as lágrimas estão embaçando meus olhos e não consigo digitar... Gente! Correndo risco de vida? Uma criança linda, bem tratada, bochechuda, cheia de vida e saúde... Se a Antonia não sabia se éramos pessoas idôneas, porque nos escolheu para dar a filha? Porque deixou o filho dela de 2 aninhos na nossa casa, dormindo conosco por 2 dias? Bem, é jogo sujo que eles querem jogar! Desde o começo da batalha judicial foram muitas mentiras... eu já deveria estar acostumada... mas muito difícil me acostumar com esse tipo de coisa... Não fui criada assim... E o Deus que conheço não me inspira a agir deste modo... No processo além da mentira da depressão pós-parto, ela disse que se arrependeu no dia seguinte que a Rafa nasceu, foi na minha casa, mas eu tinha me mudado.. Eu moro no mesmo lugar há mais de 10 anos... nesse período nunca me mudei... Quando saímos do hospital, ela nem sabia meu endereço, só ficou sabendo depois por que constava no processo. E alguém aí lembra que ela me encontrou 2 vezes depois que a Rafa nasceu? Uma na CEF e outra na Vara da Infância para assinar os papéis da adoção? Como ela diz ter se arrependido no dia seguinte? Quanta mentira... mas nada disso foi relevante pra a justiça... Bem, nesse dia voltamos pra casa sem a Rafa. Todos arrasados com aquela cena. A brutalidade com que minha filha foi tirada dos meus braços aos prantos... Levaram a criança apenas com a roupa do corpo e a mochila que eu levei com o básico para uma saída. Nenhum brinquedo, nem o "Tutu", o ursinho que ela dormia abraçada todas as noites, nada... Tudo desapareceu da vidinha dela, de repente sumiu mamãe, papai, titia,Naná, Dindo, todo mundo.... A casa dela, o quarto dela, tudo desapareceu... Eu só chorava e pedia a Deus que cuidasse de Rafaela. Pensava em como ela ia dormir... estava acostumada com histórias e cantigas todas as noites... Eles não a conheciam, não sabiam como ela dormia, o que ela gostava de comer... Uma psicóloga me disse que o sentimento dela seria de abandono... não entenderia porque a deixamos ir... Outra me disse também que ela deveria ter sentido o que uma criança sente num sequestro. Passava os dias chorando, eu, a família e os amigos. Os porteiros do meu prédio, meus vizinhos, o entregador da farmácia, o gerente da pizzaria aqui do lado... Ninguém se conformava... Como a justiça poderia fazer isso com uma criança? Desde esse dia nossa casa era só silêncio.. só vazio e tristeza... O quarto decorado, o armário cheio de roupas, os brinquedos pela sala, o pula pula na varanda... A estante dela cheio de livros, que ela amava! Tudo lembrava minha filha, a casa era só a Rafa! Mas ela não estava mais aqui.. Nos primeiros dias acordava no meio da noite ouvindo ela me chamar... Às vezes me pegava procurando por ela pela casa. Antes eu não tinha tempo pra nada, agora não sabia o que fazia com o meu tempo... Só pensava nela, como deveria estar, será que está comendo, dormindo? Meu Deus... Mas não podia ficar só chorando, no segundo dia comecei agir. Eu, meu marido e a Titia saíamos todos os dias, correndo de um lugar para outro, buscando ajuda, procurando informações...Procurando desembargadores, advogados, etc... Eu estava muito abatida, meus olhos muito inchados, meu corpo doía, mas não podia parar. Quando chegava em casa ia para o quarto dela. Muitas vezes me peguei cantando as músicas, como se ela estivesse ali... será que eu estaria ficando louca? Na rua ouvia uma criança chamando: mamãe! E me virava correndo, pensando que era minha filha... Não consegui trabalhar por alguns meses. Gravei vídeo e postei no YouTube, demos entrevista para uma matéria no Jornal O Globo. ( se quiserem ver a matéria foi publicada no dia 03 de novembro de 2013, com a manchete: “Casal que mora no Rio vive drama da adoção interrompida” Comecei a ver no face outros casos de crianças que foram devolvidas à família biológica como minha filha, estava apavorada com todo este novo universo de injustiças que se abria pra nós... Foi então que conseguimos uma advogada! Tínhamos uma ótima referência dela e de sua equipe na área da adoção, mas como vocês sabem este tipo de serviço é muito caro! Graças a Deus uma conhecida falou com elas em nosso favor, e conseguimos um preço mais acessível e parcelado. Uma nova luta estava começando... No entanto ela nos aconselhou a parar com a mídia, e acatamos a orientação dela. Lembram que a sentença me dava direito a visitas quinzenais? A princípio, não queríamos as visitas, achamos que era melhor cortar os laços... mas depois que nos tiraram ela... a dor, a preocupação era tão grande, que pedimos a advogada, agora, a particular, que lutasse por esse nosso direito. Na reunião marcada para acertar as visitas, os pais biológicos não compareceram... A minha advogada propôs a juíza um local neutro, no meio do caminho para as duas famílias, pois a Vara estaria fechada no final de semana, mas a psicóloga logo partiu em defesa da família bio e disse que eles não teriam condições de vir pra cá, nós é que teríamos que ir até eles... Aceitamos, queríamos ver nossa filha, pelo amor de Deus! Neste dia uma das psicólogas me chamou e disse que foi ver a Rafa. Eu comecei a chorar muito e perguntei como ela estava. Ela disse: Não está bem não, está muito triste, quando eu cheguei lá e ela me viu foi na gaveta e pegou a roupinha que ela foi entregue( a calça leggin e a blusa branca) e me trouxe chorando... Meu coração partiu... Meu Deus, minha filha estava pedindo socorro, pedindo pra trazer ela pra casa... Aquela roupinha era a única referência nossa que ela tinha! Imaginem o quanto sofri sabendo disso... o quanto chorei... Fui falar com a outra psicóloga, a coordenadora da Vara, mas ela disse que era normal isso, que toda criança que passa pela reinserção familiar fica triste, depois se adaptava! Normal porque não era a filha dela! Então foi marcada a primeira visita, depois seguiria normalmente de quinze em quinze dias, o local combinado para o encontro foi no shopping lá no bairro que eles moram. Os pais bio deveriam ser notificados. No sábado pela manhã, eu tremia muito, ia ver minha filha de novo! Saímos, eu, Márcio, minha irmã e uma amiga, com bastante tempo de antecedência porque o local era longe. Esperamos, esperamos, esperamos e ninguém apareceu... Que decepção... A nossa advogada foi a juíza, e ela disse que o oficial de justiça não levou a intimação pra Antonia... Sábado seguinte, novamente fomos para o tal shopping buscar a Rafa. E novamente ninguém apareceu. A advogada me orientou que tirasse cópias do ticket do estacionamento para provar que estávamos no local no dia e hora marcado. Assim aconteceu 3 sábados seguidos. No último sábado não aguentei e liguei pra Antonia, ela me atendeu irritada e passou o telefone para uma tia advogada, que disse que não iam levar a Rafa em lugar nenhum. Eu questionei se ela ia descumprir uma ordem da juíza, então ela perguntou: por quê? Você está nos ameaçando? Vai querer matar a Antonia, é isso? A mulher esperta devia estar gravando o telefonema, e tentou me irritar para que eu desse o troco... Ela não sabia o quanto eu estava fragilizada com a brusca retirada da minha filha ... só tremia, não conseguia nem responder a altura a agressão dela... Achamos que este fato ia depor contra a bio, pois ela não acatou uma ordem da juíza. Uma vez fomos ao Plantão judiciário, num sábado, passamos o dia todo lá, e conseguimos uma ordem de busca e apreensão porque a bio não estava cumprindo a ordem das visitas. Fomos junto com o oficial de justiça lá na casa deles , passamos antes na delegacia, para pedir escolta porque o oficial de justiça não queria ir sozinho. Chegamos lá à noite, mas não tinha ninguém em casa... Mais uma esperança frustrada... Nossa advogada entrou com uma petição junto ao desembargador, agora já na segunda instância para tentar reverter a guarda pra nós,até o final do processo. Estávamos esperando a resposta. Ela me ligou eufórica: Conseguimos! A Rafaela vai voltar! Liguei pra todo mundo contando, eu chorava , abraçava o Tutu e dizia pra ele: ela vai voltar Tutu! Ela vai voltar! ( O que o desespero não faz? Lá estava eu conversando com um ursinho de pelúcia!) Tudo certo, no próximo sábado, ir buscar a Rafa e trazer ela de novo pra casa! Saímos bem cedo com a oficial de justiça para a busca e apreensão, mas desta vez não seria apenas buscá-la para uma visita de final de semana, não! A guarda tinha sido revertida! Chegamos antes das 8 horas da manhã para pegá-los de surpresa. Eu fiquei esperando lá embaixo, a oficial de justiça, os policiais e minha irmã subiram até a casa dela. Eles entraram, pois não tinha campainha, chamamos, batemos palmas, gritamos o nome dela, mas ninguém apareceu... O Suposto pai biológico atendeu a porta ainda de cueca, estavam dormindo, a oficial de justiça mandou minha irmã procurar a Rafa na casa. Mas nem sinal das crianças... Minha filha nunca tinha dormido um dia fora de casa, longe de nós, e agora a bio que lutou tanto para tê-la, já com menos de 1 mês já deixava a menina dormindo fora de casa, Deus sabe onde... Nesse dia a Antonia fez um escândalo daqueles, ela gritava, perguntava por mim, que ia me dar porrada! O policial disse que se ela agredisse alguém iria presa. Mas ela não se continha.. Desceu até o portão onde eu estava, e gritava batendo as mãos na genitália: Ela saiu daqui! Você não vai roubar minha filha! Vai aprender a fazer filho! Arruma um homem que saiba fazer filho! Os vizinhos , as pessoas que passavam na rua, todo mundo olhando o show. Era só o começo de tudo o que teríamos que aturar daqui pra frente... Antonia se recusou a dar o paradeiro da Rafaela para a oficial de justiça. Voltamos pra casa novamente sem minha filha. Bem , pensamos, agora o desembargador vai agir, a genitora não pode fazer o que quiser e não ser punida... Novamente nos enganamos... No próximo capítulo vou contar o que aconteceu.
Vídeo que gravei logo depois da retirada da minha filha, e postei no YouTube. Por conta disso chamamos a atenção de algumas pessoas para a nossa história.Estava desesperada, em busca de ajuda, apoio e informação.
Aproveito para postar um vídeo da criança que estava em risco de vida ao nosso lado! Uma criança, linda, saudável e feliz. Vídeo que editei para o aniversário dela de um aninho!













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